19.5.17

Das dores de ser Professora...


Este texto é para quem me pergunta sempre sobre o meu dia, sobre a minha profissão e, possivelmente, para todos aqueles Professores que trabalham em Centros de Estudo, como eu.

Sou Licenciada em Línguas Aplicadas, tenho um Mestrado em Educação e Estudos da Criança. Não tenho um Mestrado em Ensino, o que não me permite dar aulas 'numa escola'. Para muitos, isso faz de mim menos Professora do que aquilo que sou, faz de mim menos credível, menos capaz de educar. Trabalho, desde há 4 anos, em regime de Centros de Estudo. Trabalho, até à data, em cinco locais diferentes. Sim, leram bem, cinco. Quem conhece esta realidade, sabe bem que é quase impossível arranjar horário completo apenas num estabelecimento. Lido diariamente com crianças do 1º ciclo até ao secundário. Tenho, no total, mais de 20 alunos ao meu cuidado, a quem dou disciplinas, maioritariamente línguas, em anos bem distintos. Faço preparações de exames. Ensino todos os dias 4 línguas diferentes. 

Às vezes, as pessoas não dão valor à nossa profissão. Todos passamos pelo mesmo, em qualquer uma (e sei do que falo, também já fui repositora de supermercado, por exemplo), mas ser Professor é ingrato. É uma profissão injusta e ingrata, onde muitas vezes não somos reconhecidos pelo trabalho que temos. Trabalho esse que continua em casa. 1/3 do meu quarto é preenchido todos os anos com novos manuais, novas gramáticas, novo material didático e pedagógico. Carradas de livros que carrego comigo todas as semanas e sobre os quais me debruço quando tenho dúvidas, quando tenho que estudar alguma matéria, quando preparo explicações, fichas e trabalhos. 

É um trabalho injusto porque somos muitas vezes 'os maus da fita' para os alunos e para os pais e 'os maus da fita' para os empregadores, que acham que nos estão a pagar demasiado para o trabalho constante que fazemos. Mas é, sobretudo, injusto, no que toca à valorização, no que toca ao reforço positivo (aquele que tanto se insiste em dar aos alunos, para que não percam a motivação)...Os Professores também precisam de motivação, sabem? Dos pais, dos patrões, dos próprios alunos, muitas vezes...só assim conseguem fazer um bom trabalho.

Hoje, estava a dar explicação a uma criança com apenas 9 anos, que muitas vezes me tira do sério, me mói o juízo e me drena a paciência, mas outras me enche o coração apenas com um sorriso. A meio dos trabalhos de casa, levanta-se, abraça-me, e diz-me «És a melhor Professora do mundo! Adoro-te!». Não tive um dia bom, confesso, portanto, aquele momento fez-me esvair em lágrimas na hora, mesmo que eu soubesse que parte daquela 'declaração de amor' era meia aldrabada por ter ajudado com uma pergunta. «Porque é que estás a chorar? Fui eu? Estás a chorar por minha causa?», disse-me...expliquei-lhe que não, que não havia nada errado, ao que a criança em questão, que continuava abraçada a mim, me respondeu: «Sabes, eu só choro, por exemplo, quando alguém me faz mal...alguém te fez mal?»...

Pensei muito naquela pergunta...Alguém me tinha feito mal...? Eu fiz mal a mim mesma...em escolher esta profissão?

Naquele momento, chorei, porque não me sentia valorizada, porque me sentia cansada e injustiçada, porque foi um aluno a dar-me valor, quando essa valorização deveria partir de outro lado. De mim mesma, inclusive. 

Os Professores, inclusive os que não têm um Mestrado em Ensino, também precisam de valorização, sabem? Obrigada ao aluno que ma deu, hoje.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Ser professor não deve ser fácil... se há uns anos atrás os professores eram uma figura muitas vezes temida...hoje em dia e pelo que me parece à falta de respeito dos aluno para com os professores...

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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